[Consoles] Parem de culpar os games!

*Texto publicado  originalmente no Nerdrops. Re-publicado sob autorização.

Recentemente estive envolvido numa discussão interessante a respeito do “papel dos games” na formação das crianças e adolescente de hoje, e notei uma coisa: a mídia mais nova sempre será a culpada por “desvirtuar” a índole das crianças a qual ela está sendo mostrada.

É muito mais fácil culpar algo que se não conhece bem do que admitir que existem outros problemas que levam a determinados atos ou situações. O mais recente (e absurdo caso) é sobre o psicopata que matou crianças em Realengo, subúrbio do Rio, e que mencionou que gostava de jogar GTA. Pronto, o circo estava armado.

Matheus da Costa Meira, o “Atirador do Shopping”

Vamos aos fatos. Primeiro ponto: videogames não tornam ninguém violento. Filmes não tornam ninguém violento. Livros não… Ok, você entendeu. O que torna alguém violento é a falta de conversa, a falta de informação, e a falta do diálogo, principalmente se os interlocutores ausentes são os pais da criança (fase onde quase todo seu caráter pode ser definido). Se um maluco aparece atirando num cinema, e fala que foi influenciado por Matrix, a culpa é da esquizofrenia dele por não saber diferenciar um filme da realidade.

Se uma criança leva uma arma pro colégio e atira em alguém, os pais devem ser responsabilizados porque: 1.) Tinham uma arma desprotegida em casa, e 2.) Não ensinaram para aquela criança que uma arma é um instrumento perigoso que deve ser manuseado com cuidado por um adulto. Mas infelizmente, é muito mais fácil culpar algo genérico do que admitir que as pessoas tem problemas, e as famílias também tem problemas.

Segundo ponto: formação de valores. Uma pessoa que leva uma arma pra um local público e começa a atirar não tem respeito pela vida, e isso é falha no processo de formação dos valores dessa pessoa. Da mesma forma que alguém pode não diferenciar o certo do errado, ela também pode julgar uma situação de maneira diferente de você.

Atropelar os pedestres e diminuir o dano no seu veículo, ou jogar seu carro contra o muro e salvar as pessoas? A sua decisão vem dos seus valores, não por causa do filme que você assistiu antes de sair de casa. Seus atos são determinados por quem você é, e não pelo que você fez. Claro, algumas coisas podem dificultar seu julgamento, mas você sempre tem a escolha.

De volta ao assunto, é inevitável que você não tenha ouvido isso antes: “Videogames violentos tornam as crianças violentas”, ou “fulano agiu assim por causa de um jogo XYZ”. Todas as mídias sofreram esse tipo de pré-conceitualização até serem aceitas pelos pais, educadores e a sociedade em geral. Com games não foi diferente no início, inclusive agora se tornou mais pessoal.

Capitólio americano

O Congresso americano está prestes a votar uma lei que retira os games da classificação de “artes e entretenimento”, ao qual estão vinculados os filmes, as séries e os canais de TV, que permitem uma certa dose de liberdade criativa. Num modo mais simples, a “censura” teria direito de atuar com força total em cima dos casos de games polêmicos (como GTA, Manhunt e muitos outros), podendo suspender a venda, proibir a concepção, e até tornar crime a produção de jogos com conteúdo mais “problemático”. Caso essa lei seja aprovada, não durara muito tempo até os games retornarem ao estágio de “coisa de criança”, e talvez a indústria até encontre seu fim.

Mas calma, não há motivos para desespero porque o lado que defende os games é maior do que o aquele que ataca. Associações de consumidores e produtores entendem que tal pedido é abusivo e estão articulando a defesa da indústria de entretenimento que mais fatura no mundo. Algumas leis desse tipo já foram barradas antes, mas essa é a primeira que chega na instância mais alta dos tribunais americanos. Para maiores detalhes, assistam esse excelente vídeo do Extra Creditz falando nesse tema.

Do nosso lado, temos um papel importante a cumprir. Precisamos defender o que acreditamos ser o correto (como em caso de falsas acusações e injustiças) e criticar quando está errado (como no caso de lançamentos de jogos totalmente desnecessários e/ou apelativos). É um lado muito importante que tem sido negligenciado até hoje.

Wellignton Menezes de Oliveira, o assassino de Realengo, disse gostar de GTA.

 

É por isso que eu sou o primeiro a argumentar quando casos como o assassinato aqui no Rio (ou em qualquer outro lugar) acontecem. Não venham me dizer que “os videogames violentos estão destruíndo nossas crianças!”. Eu jogo videogames desde os 6 anos. Já joguei todos os grandes títulos polêmicos, incluindo Manhunt e GTA, e nunca tive um pensamento sequer de sair por aí atirando nos outros com a desculpa de que queria fazer igual ao jogo. Isso porque desde cedo fui ensinado sobre o que é certo e o que é errado.

Criação, educação e valores são fundamentais na formação de uma pessoa, e a falta de qualquer uma dessas virtudes é desastrosa a longo prazo. Ok, a indústria também não é santa, mas ela não tem o papel de educar, mas sim divertir.

Se você hoje joga, e gostaria de que seu filho entendesse no futuro o que é certo e errado, ensine, eduque, mostre por exemplo. E assim num futuro próximo, os games deixarão de ser esses monstros que algumas entidades pintam hoje como culpados, e passarão a ser uma parte comum das nossas vidas.

One thought on “[Consoles] Parem de culpar os games!

  1. Paulo César

    É mais fácil colocar a culpa nos games do que dizer que a culpa é do Tropa de Elite 2.

    Claro, o Tropa de Elite também não é culpado. Mas acho interessante que o povão da mídia só coloca a culpa nos games…

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